Inteligência Artificial, Inovação e Transformação da Ciência
Uma perspectiva estatística: fundamentos, incerteza e soberania
Prof. Dr. Jodavid Ferreira
Departamento de Estatística · CCEN · Universidade Federal de Pernambuco
Mesa-redonda do IV Workshop de Divulgação Científica e Didáticas (IV WDCD)
15 de outubro de 2026 · Auditório do CCEN
Modelos geram código, resumem a literatura e acham padrões em segundos.
Mas quem garante a qualidade das perguntas, a validade das evidências e o rigor das decisões?
Tecnologia gera possibilidades; critérios estatísticos transformam possibilidades em ciência.
+26% artigos com IA nas CIÊNCIAS NATURAIS em um ano (≈ 80 mil em 2025)
6–9% da produção científica já envolve IA, conforme a área (< 1% em 2010)
88% das organizações usam IA em ao menos uma função (McKinsey, 2025)
< 20%
de acerto dos modelos de fronteira ao tentar replicar artigos de astrofísica (ReplicationBench).
Gerar ficou barato. Auditar virou a competência decisiva.
Fonte: Stanford HAI, AI Index Report 2026; McKinsey, State of AI 2025.
Fontes: CGEE (2025); OMPI, Global Innovation Index 2023–2026 (139 economias).
Publicamos muito, mas convertemos pouco em produtos, patentes e empresas, e a posição vem caindo.
“Se o conhecimento não vira solução para a sociedade, vira autoelogio.”
1. Modelos de fronteira
escala de capital de outra ordem
2. Adaptação e especialização
SLMs, ajuste fino, dados e domínios locais
3. Aplicação estratégica
SUS · agro · clima · energia
Nas camadas 2 e 3 estão problemas que ninguém lá fora vai resolver por nós.
A lição dos genéricos: capacidade nacional gera autonomia e poder de barganha.
É onde desenho amostral e validação local decidem.
Todo modelo, do mais simples ao maior LLM, aproxima o mecanismo gerador a partir de uma amostra finita
Mecanismo gerador → Desenho amostral e coleta → Otimização (a IA acelerou) → Validação e incerteza → Decisão
a validação volta e questiona como os dados foram coletados
Delphi–Facebook · ~250 mil respostas/semana +17 p.p. de erro na vacinação contra Covid (1ª dose, adultos dos EUA, maio/2021), com IC 95% tão estreito que nem aparece no gráfico
Axios–Ipsos · ~1 mil respostas/onda +4,2 p.p. de erro; o IC 95% conteve o valor oficial do CDC em 10 de 11 ondas (cobertura empírica de 91%)
Referência: contagem oficial de 1ª doses do CDC. Totais jan.–mai./2021: Delphi–Facebook 4.525.633 (19 ondas); Household Pulse 606.615 (8); Axios–Ipsos 11.421 (11). Bradley et al. (2021), Nature, 600, 695–700.
Clássico (): uma solução.
Moderno (): infinitas soluções; a regularização escolhe uma.
O desafio é escolher, entre infinitas soluções, a que generaliza.
Belkin et al. (2019); Hastie et al. (2022).
A predição conforme dá a qualquer modelo intervalos com cobertura mínima garantida em amostra finita:
Exige permutabilidade. A garantia é marginal: vale na média, não em cada grupo.
Média boa esconde subgrupo ruim: a auditoria tem de ser estratificada.
A escada de Pearl:
Sem desenho ou suposições causais, dados observacionais não identificam efeitos, não importa o tamanho do modelo.
Prever quem vai adoecer não diz qual tratamento funciona.
1 Bate um modelo simples? Em 71 estudos clínicos, o ML não superou, em média, a regressão logística (Christodoulou et al., 2019).
2 Funciona em outro hospital, outra cidade, outro equipamento? Modelo de pneumonia em raio-X aprendeu a reconhecer o hospital, não a doença (Zech et al., 2018).
3 É estável a pequenas perturbações? Modelos de Covid usavam marcas de texto na imagem (DeGrave et al., 2021).
4 Sabe dizer quando não sabe? Intervalos, calibração, abstenção.
Não “o modelo acerta?”, mas: em que condições, para quem, com que margem de erro?
≈ 29 mil submissões à trilha principal da AAAI-26, quase o dobro de 2025 AAAI; OpenReview (2026)
6,5–16,9% do texto de revisões em conferências de IA (2023–24) modificado por LLMs, estimado por máxima verossimilhança Liang et al. (2024), ICML
A Universidade precisa valorizar profundidade, reprodutibilidade e impacto real.
Aceleração legítima: AlphaFold (Nobel 2024), simulação, Monte Carlo.
Riscos: equações erradas, citações inventadas, ilusão de entendimento.
97% de acurácia aparente não prova nada.
Os erros mais comuns são silenciosos:
Kapoor & Narayanan (2023): vazamento em centenas de artigos de 17 áreas.
O computador não vê esses erros; a Estatística vê. A responsabilidade autoral não se transfere.
“Comprar hardware é o passo mais fácil; o desafio é usá-lo de forma produtiva para o país.”
O que está saturado Usuário de prompt pronto e de tutorial, sem base para auditar.
O perfil disputado Fundamentos de probabilidade, rigor de desenho e capacidade de formular problemas reais.
Bibliotecas mudam a cada dois anos; verossimilhança, amostragem e causalidade, não.
Avaliar o percurso, não só o produto
Tarefa antiga “Ajuste uma regressão linear múltipla e calcule o intervalo de confiança.”
A IA faz em segundos.
Tarefa adaptada “Gere duas modelagens com IA. Aponte onde as hipóteses foram violadas, corrija e defenda oralmente sua escolha.”
Defender uma escolha diante de uma banca é a prova oral da vida real.
Outras ideias: erros plantados numa análise feita por IA; bases do IBGE e DATASUS; arguição curta por sorteio em turmas grandes.
Viés e equidade , Privacidade (LGPD, art. 11), Acesso equitativo, Autoria e integridade
| Risco baixo | Risco moderado | Risco alto | |
|---|---|---|---|
| Atividade | Brainstorming, revisão de estilo | Análise exploratória, código assistido | Atribuir notas, selecionar bolsistas, diagnóstico |
| Governança | Uso livre com leitura crítica | Validação e declaração de uso | Supervisão humana, explicabilidade, direito a recurso |
| Pergunta | Faz sentido? | O estimador é válido? | Quem responde pelo erro? |
O AI Act europeu classifica IA para admissão e avaliação educacional como alto risco.
Reg. (UE) 2024/1689, Anexo III. No Brasil, o PL 2.338/2023 também classifica por risco.
“A Inteligência Artificial pode acelerar a velocidade das nossas respostas. Mas a Estatística garante a solidez das nossas perguntas e a calibração das nossas incertezas.”
Não seremos consumidores passivos de tecnologia: seremos construtores críticos da inovação, com rigor.
Muito obrigado!
Prof. Dr. Jodavid Ferreira
Departamento de Estatística - CCEN/UFPE
jodavid.ferreira@ufpe.br | http://jodavid.github.io
Feito com auxílio de IA, usando o modelo Claude Opus 5.5 (Anthropic), mas a responsabilidade pelo conteúdo, pelos dados e pelas referências é do autor.
Angelopoulos, A. N.; Bates, S. (2023). Conformal prediction: a gentle introduction. Foundations and Trends in ML, 16(4).
Belkin, M.; Hsu, D.; Ma, S.; Mandal, S. (2019). Reconciling modern machine-learning practice and the classical bias–variance trade-off. PNAS, 116(32), 15849–15854.
Bradley, V. C. et al. (2021). Unrepresentative big surveys significantly overestimated US vaccine uptake. Nature, 600, 695–700.
Breiman, L. (2001). Statistical modeling: the two cultures. Statistical Science, 16(3), 199–231.
CGEE (2025). O Panorama Brasileiro da Ciência, Tecnologia e Inovação em Inteligência Artificial.
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DeGrave, A. J.; Janizek, J. D.; Lee, S.-I. (2021). AI for radiographic COVID-19 detection selects shortcuts over signal. Nature Machine Intelligence, 3, 610–619.
Guo, C.; Pleiss, G.; Sun, Y.; Weinberger, K. Q. (2017). On calibration of modern neural networks. ICML.
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